segunda-feira, 28 de março de 2011

100º gol de um mito

Rogério Ceni é o melhor goleiro que já vi em minha vida.

É um goleiro único em muitos aspectos.

É um verdadeiro mito. Já é um mito.

Bom, sob as traves, na função básica e primária de um goleiro, outros foram melhores. Como o grande Marcos, como Julio Cesar hoje, como foi Zetti, como é Buffon, enfim, há muitos grandes goleiros-goleiros (obrigado, Vanderlei, por essa criação que nos ajuda a definir desde o zagueiro-zagueiro até o goleiro-goleiro).

Mas, há uma diferença, ou melhor, há várias diferenças, e marcar gols não é a principal delas, como goleiro.


Há alguns anos, o saudoso Armando Nogueira disse que Rogério era um verdadeiro líbero. Nunca discordei, Rogério é um quarto ou quinto zagueiro,é um líbero, é um jogador de linha que se apresenta na hora do sufoco em um ataque adversário. As bolas não são recuadas para ele, são tocadas, e ele dá bom endereço para a grande maioria delas. É uma válvula de segurança para os momentos de pressão.

Rogério tem uma virtude muito pouco comentada: simplesmente não toma gols em cobrança de faltas. Desde 2005, ele sofreu um único gol em cobrança de falta, na reta final do Brasileiro 2007, contra o Botafogo, no Morumbi, em cobrança de Juninho. São mais de seis anos e um só gol, disputando nada menos que seis Brasileiros, seis Copas Libertadores, um Mundial de Clubes, já no sétimo Paulista e alguns outros torneios, como Sul Americana e Recopa. Esse caso é único, também.

Como goleiro-goleiro ele é simplesmente ótimo! Autor de defesas miraculosas (em profusão nos últimos tempos) que muitas vezes salvaram o São Paulo.

Falha, como falha todo goleiro. A falha é inerente ao ser humano e não é por elas que ele deve ser julgado.

Tenho grandes lembranças de jogos do São Paulo com ele atuando. Talvez a mais impactante para mim tenha sido o jogo contra o Cruzeiro, no Mineirão, quando, além de grandes defesas contra um time que tinha um ataque terrível, foi à frente e marcou duas vezes, empatando o jogo: uma de falta e outra em cobrança de pênalti. Por sinal, Rogério é melhor cobrador de faltas que batedor de pênaltis. O que impediu-o de marcar três gols numa só partida e pela Copa Libertadores, contra o Tigres, do México, no Morumbi. Depois de fazer dois gols em cobranças de faltas, mudando o lado da bola, foi bater um pênalti e cobrou mal. Uma pena.

Duas vezes o São Paulo sofreu gols depois dele ter cobrado uma falta. Na primeira vez, no Morumbi, depois de marcar contra o Fluminense a comemoração foi exagerada, não por parte dele, mas dos companheiros de time. Espertamente, Roger correu para o meio e o juiz deixou que fosse dada a saída antes dele chegar ao gol. Do círculo central, Roger chutou e marcou, um lindo gol. De outra feita, creio que em 2007, durante uma das passagens de Luxemburgo pelo Santos, a bola batida por Rogério bateu na barreira e um jogador santista pegou o rebote. Vanderlei tinha ensaiado o que fazer e o time cumpriu à perfeição, chegando ao gol do São Paulo em três ou quatro toques e marcando. Uma grande e pensada jogada.

Houve um treinador no São Paulo que proibiu Rogério de cobrar faltas. Felizmente, durou muito pouco tempo e não deixou saudades.


Não vou falar sobre seu número de jogos pelo São Paulo, sua dedicação ao clube, seu profissionalismo, com certeza já há muitas matérias ótimas e completas a respeito dele nesse momento. Vou recordar um fato pouco conhecido. Antes da eleição que levou-o ao segundo mandato no São Paulo, Marcelo Portugal Gouvêa chamou Rogério e disse-lhe que iria antecipar a renovação de seu contrato. Marcelo temia que, em caso de derrota (ele era precavido, prudente, adorava os jogadores e sabia que um clube precisa de grandes ídolos e Rogério já era esse ídolo), ele pudesse não ter seu contrato renovado pela nova diretoria. E assim foi feito.

E no ano seguinte, em Yokohama, Rogério disputou uma partida absolutamente incrível, maravilhosa, contra o Liverpool e garantiu a terceira conquista do título mundial pelo São Paulo. Uma das defesas, em cobrança de falta de Gerrard, é antológica. Nada de novo, como eu disse acima Rogério não sofre gols de falta (quase nunca, vá lá).

Muitos torcedores de outros times não gostam dele. É o preço a pagar por quem nunca fez questão de ser simpático, mas sempre foi correto.

Rogério fala o que pensa e ele pensa um bocado. Fala sobre política, fala sobre futebol, fala sobre o São Paulo. Como todo ser pensante falante, em particular no Brasil, é costumeiramente mal interpretado e atrai antipatias. Paciência. Na verdade, estamos mais acostumados a boleiros que nada falam ou só falam bobagens ou que tem o rótulo de rebeldes e outros mais.

Hoje, na Folha de S.Paulo, Paulo Vinicius Coelho disse que os cem gols de Rogério valem por mil de um jogador de linha. Tudo que posso dizer é que, humildemente, concordo com PVC em gênero, número e grau.

Rogério hoje escreveu um grande capítulo na história do futebol mundial.

Seu 100º gol foi irretocável, perfeito, sem chances de defesa para o excelente Julio Cesar. Um gol ao seu estilo, com sua marca registrada.

Gol digno do mito que ele é: o maior goleiro-artilheiro da história do futebol.

Olhar Crônico Esportivo

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